Dom João intimado? Eu também!

31 de outubro de 2013
Li em A Gazeta, página de Opinião, do dia 23/10, o brilhante texto do professor João Baptista Hernkenhoff com o título Dom João intimado; o título por si mesmo já diz o assunto focado pelo autor.

Sou leitor assíduo do professor que, vez por outra, traz à memória os nomes de dom João Baptista e dom Luís Gonzaga Fernandes e o que eles sofreram de marcação por parte dos militares que governaram o Brasil por quase 20 anos porque eram considerados de esquerda; na verdade dos dois bispos o mais esquerdista era o nordestino dom Luís, da escola de dom Helder.

Conheci os dois primeiros bem de perto porque trabalhei diretamente com eles, sendo que no caso dom Helder tive o privilégio de participar, na Casa da Paz, no Rio de Janeiro, de alguns cursos nos quais ele estava sempre presente. Entrevistei-o mais de uma vez, sendo uma das entrevistas aqui em Vitória, quando veio paraninfar uma turma de formandos de Economia, salvo engano.

Escrever sobre as figuras de dom João Baptista (à direita), dom Luís (abaixo), e dom Helder (terceira foto), nunca me foi uma tarefa muito difícil, por conhecê-los razoavelmente bem e também por conhecer a opção deles pelos pobres, na contramão de uma grande parte do clero brasileiro, que preferia os mais ricos.

Dom João, carioca, vindo da escola de bispos conservadores, nem por isso permaneceu nessa escola quando chegou em Vitória para assumir o cargo de arcebispo. Seu discurso de posse foi em um palanque, em praça pública, no Morro do Quadro, e lá estava eu saudando-o em nome da comunidade local, morador que era da Vila Rubim.

Um dos seus primeiros atos como arcebispo foi trocar o carro chapa Arcebispo de Vitória por uma Rural Willys que, na maioria das vezes, ele mesmo dirigia, inclusive em viagens ao Rio de Janeiro para participar de reuniões na Casa da Paz, sendo eu um dos seus passageiros.

Aboliu um monte de salamaleques que faziam parte da liturgia do cargo, inclusive o beija-mão usual na época. Detestava convite para abençoar instalações bancárias.

Quem não se lembra das enchentes do Rio Doce quando Colatina ficou inundada? Fazendo apelos em favor dos desabrigados, cunhou a seguinte frase: Quem gosta do pobre é o pobre! Outro feito dele, em mais uma demonstração de opção pelos pobres, foi quando abrigou na Catedral Metropolitana de Vitória dezenas de desabrigados, causando um rebuliço tremendo no meio da elite dominante.

Passei muito sufoco por abrir os microfones da Rádio Capixaba para verbalizar contra políticas públicas equivocadas e contra a repressão, chegando ao ponto de passar noites inteiras “de castigo” nos corredores da Polícia Federal e do DOPS. Apesar de tudo que sofri, nunca aceitei a ideia de pedir qualquer tipo de indenização, porque se o fizesse estaria apresentando “a fatura” da minha contribuição em favor do restabelecimento da democracia.

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